Blog pessoal de Ana Paula Motta

Domingo, 20 de Março de 2011

 

Ela acordou sentindo um cheiro de maresia, o edredon florido jogado no chão, a essa altura cheio de areia.

 

A maresia e a areia vinham junto com ele, assim como o pão quentinho. Sentiu a presença do corpo molhado de mar. Sorriu e abriu os olhos.

 

Depois de uma noite de febre, acordou bem disposta e feliz. Deprimia-se quando uma gripe chegava . Só os cuidados dele a confortavam e davam segurança. Chá com mel e um abraço. Coca-cola.Santos remédios.

 

Abraçaram-se e olharam juntos pela janela. A ressaca do mar trazia areia e água até a avenida à beira-mar. Adorava a imagem do mar bravio, com ondas estourando violentas, a espuma branca salpicando no ar.

 

Amanhecer feliz na casinha cor-de-rosa, uma rotina que nunca cansava.


sinto-me:
publicado por Ana Paula Motta às 01:47
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Quinta-feira, 14 de Outubro de 2010
Aquela manhã de setembro estava insuportável. Desde que voltara ao trabalho, sócia numa pequena empresa, as sextas-feiras eram um tormento.
Dois dos colegas nunca se entendiam e perdiam um tempo enorme tentando provar que estavam certos, ela tão sonhadora na vida pessoal era extremamente prática no trabalho e se via sempre forçada a tomar as rédeas da situação.
Enquanto brigavam ela com uma enorme dor de cabeça se esforçava para terminar os relatórios semanais e deixar pronta a pauta da nova semana.
Aviso do porteiro, encomenda para ela.
Começou a rasgar o papel na sala comum aos sócios, se deteve assim que viu o nome da loja na pequena caixa. Foi para a sala privada e sorriu quando terminou de abrir. Lingerie preta com renda francesa. Com certeza ele havia visto seus olhos cobiçando as peças quando passaram em frente à loja.
Vivem o doce desequilíbrio dos sentimentos intensos.Separam-se e juntam-se, perdem-se e acham-se.
Divagava sobre o seu amor em meio aquele caos de papéis e contas.
Som de mensagem. Um SMS: Te aguardo...agora!!
Deixa um bilhete na secretária e sai apressada.
Ele a recebe com um sorriso e um beijo demorado.
No carro as botas de montaria castanhas , uma cesta enorme, mala.
Ia ser "raptada" para a serra. As crianças estavam na casa dos tios, ele avisava.
Caixa de presente na mão, deixa o vento bater na cara.
Equilibram-se nas primaveras e outonos, quando as almas milagrosamente se fazem harmônicas.
Acordam junto com o sol e vão colher o dia. Andam agora a cultivar auroras.
sinto-me:
publicado por Ana Paula Motta às 13:11
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Quarta-feira, 30 de Dezembro de 2009

Depois de um ano tão difícil e ao mesmo tempo com tantos obstáculos vencidos só pensava duas coisas: "Como eu gosto da minha vida e como são tolas as promessas de ano novo".
Parar de fumar (nunca havia feito essa promessa, engravidou e simplesmente nunca mais fumou), fazer dieta (depois de certa idade o que importa é não ultrapassar certos limites perigosos de peso, corpo ideal é delírio de menina insegura), ser mais tolerante (isso aprendeu depois dos 40 anos e não num primeiro de janeiro qualquer)...
Detestava as festas de reveillón com muita bebida e quase nenhuma comida,conforto zero e zilhões de pessoas desconhecidas ao redor. Decidiram partir rumo ao sol, porém apenas para assistir a queima de fogos. Depois aconchego de uma festinha me família, mesa posta,velas e flores.
Lembra-se sempre do avô nessa data: "Olha pro céu,olha o ano velho indo embora e o ano novo chegando." E das lamúrias da avó,:"Para o ano eu não estarei mais aqui" (viveu 93 anos).
Definitivamente não era uma festa dela,amava o Natal, mas as comemorações de Ano Bom traziam sempre um certo tédio, um gosto meio cinza na boca. Ano Bom é estar cercada de amor.
Que viesse mais um ano, sem promessas, sem tantas expectativas, um ano de sentimentos plenos e guarda-roupa arrumado.
Com amor, rumo ao sol..
publicado por Ana Paula Motta às 21:47
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Domingo, 27 de Dezembro de 2009

Teve um ano difícil. A decisão de deixar para trás a casa confortável, os amigos, os parentes e até mesmo os meninos adolescentes não tinha sido fácil.
Sua mãe tinha sido uma santa quando trouxe pra ela a responsabilidade por seus rapazes. O marido mais uma vez demostrou um carinho maior que qualquer outra pessoa, decidiu trabalhar menos e comprou aquele chalé no meio do nada.
A filhota, sua bonequinha, sua única companhia de segunda a quinta.
Os meses no campo tinham feito bem,estava mais gorda,é verdade, mas tinha a pele mais brilhante e os cabelos estavam compridos e sedosos. Voltou a gargalhar como antes.
Resolveu transformar a casinha num lugar mágico. O primeiro Natal longe do "mundo", cercada de neve, de vento, de casinhas simples. Uma aldeia, onde todos se conhecem e se cumprimentam com um bom dia.
Tricotou suas primeiras peças, uma meia para esperar o bom velhinho e um cachecol vermelho para sua pequena.
Forno quente, comida farta,presentes na árvore e um presépio singelo. Tinha tantos afazeres que nem viu a hora passar.
Anoiteceu cedo e nem sombra dos meninos e Ele. Um aperto no estômago trouxe de volta emoções que preferia esquecer.
Medo.

Penteou o cabelo da pequenina, pôs o vestido novo. Mesa arrumada, luzes piscando.Lá fora, só o vento.
Resolveu contar uma história, A Pequena Vendedora de Fósforos. Ficaram as duas ali absortas na tristeza da protagonista. Adormeceram abraçadinhas sob a manta xadrez.
Acordaram assustadas com uma lufada de vento gelado. Os homens da casa. Dez e meia da noite. Pai ao piano, risadas alegres. Os meninos encantados com o velho trenzinho deslizando nos trilhos embaixo da árvore. As antigas bonecas de porcelana traziam um brilho especial aos olhos da filha.
Correu para a cozinha, por pouco o rei da ceia não vira carvão. Respirou aliviada. Estava a salvo.
Sentou-se à mesa e sorriu, aos poucos tinha sua vida de volta.


publicado por Ana Paula Motta às 23:51
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