Blog pessoal de Ana Paula Motta

Domingo, 4 de Maio de 2014

Dezenove anos. Aparentava coragem e ousadia nos cabelos compridos e no jeito que dava ao olhar, algo presunçoso. Indeterminada, julgava planejar. De fato, era teimosa como o lamaçal diante dos burros. Talvez por isso carregasse mochila, nas viagens de aparência despreocupada. Tentaria aproveitar as férias, num aprendizado do voar. Sentia o arrepio das boas decisões. 

 

Vivia a dificuldade da falta de monotonia: trabalho excessivo, amores ruins, e, por seguinte, os desamores. Sobrevivia. Rugas e cabelos brancos, cruéis no corpo, danosos na alma. O espelho mostrava sua atitude de aparência fortalecidaReceava o mundo. Com as férias, partia em busca das deficiências. 

 

Acordar mais cedo, antes das seis. Andar atordoada e trôpega pelo corredor. Água quase fria, mosquitos, desconforto: o ponto em que se está. 

 

Olharam-na de soslaio. A postura aristocrática gerava desconfiança: chapéu, leque e outros tais desagregadores. Não falava com ninguém. Usava a profissão como desculpa. Em todas existem os tipos agradáveis e antipáticos. A miopia fazia o tipo jornalista. Puseram-na num quarto isolado e individual, com banheiro. A exclusão acabou por trazer alívio. Acordava cedo. No trabalho, discordava e enrolava. Cumpria as tarefas com perda expressiva do tempo. Deslocaram-na ao trato com as crianças da aldeia. Contava histórias. Voltou a casa no fim da tarde, pressurosa com a lentidão do tempo. Lera parte dos livros que levara. Não havia outra atividade que lhe ocupasse. O desespero das coisas internas subia ao nível da consciência. Não havia internet. Sentia falta da poluição, do barulho e do trânsitoRestava procurar tais coisas. Foi por uma picada, aberta pelos locais. Seu vestido outrora branco ganhou tons avermelhados da poeira. Na cidade, andou ruas tumultuadas, cheirou a fumaça dos carros e apreciou os barulhos. Entrou numa birosca com internet. Olhou as mensagens e as redes antissociais. Faltava alguma coisa. Comprou jornal, revista e uns livrosTalvez não os lesse, mas gostava de tê-los por perto. Na rua, a feira anual dos livros aconteceria em quinze dias. Um acontecimento ansiado. Ao fim do dia, ia ao refúgio. Ouviu uns gritos. Um menino estava ferido. Não havia socorro disponível. Então, tomou a criança nos braços e levou ao automóvel. Foram correndo ao hospital. O atendimento não demorou. Pensaram as feridas, deram uns pontos. Passaram a noite por ali. Sua primeira vez num lugar como aquele. Sentou-se ao lado do leito do menino, sem livro nem televisão. Ouvia as conversas alheias: "Estou morando aqui há seis meses. Isso é terra de bicho. Ninguém se conhece. Fui comprar uma sunga para meu filho, e antes passei no banco para tirar dinheiro. Um ladrão tentou roubar minha bolsa. Eu agarrei com força. E ele começou a cortar meu braço com canivete." Acompanhou a narrativa da mulher: "Quando não aguentei mais, o ladrão levou minha bolsaFiquei caída chorando, e ninguém veio me ajudar. Lá na minha cidade todo mundo se conhece. Se fosse lá, vinham me socorrer. Eu morro de medo dessa cidade. Agora, só ando com um trocadinho no bolso." Parecia falar de alguma metrópole violentaMas era mesmo dali, cidade de pouco mais de 300 mil habitantes. Pela manhãvoltaram ao acampamento. Trabalhou como forma de correr o tempoAlmoçou o que foi possível. Emagrecia. Sentia saudades das comidas preferidas. À tarde, editou um filme com os trabalhos das crianças – desenhos criativos, diferentes, próprios dlugar. No domingo, acordou bem cedo: ver a missa no acampamento. Gostou da cerimônia. Sentiu falta dformalidade no ritual. Não conhecia as músicas. Não havia imagens. Tudo isso impediu sua concentração espiritual. Conheceu o Padre Lucas: jovem, barbicha – cara de estudanteOutros religiosos por ali também eram diferentes dos que conhecera na escola. Irmã Alice amava as pessoas. Trazia doçura real, entrega sorridente e garra leonina. Irmã Maritza acreditava nas causas. Atuava de maneira técnica. Geria a missão com eficiência pragmática inflexível quanto aos princípios. 

 

E eu? Talvez afogasse no fim do mundo a frustração por não ter coragem. Ou por não ser o centro da vida dele – o chamado eterno amor. não me envolvia – nem com a missão, nem com a vida. Aldeia da chuva. Sonhar o passado tão remoto. 

publicado por Ana Paula Motta às 22:15
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